Corrigir Valorcorreção monetária e índices oficiais
Painel com várias linhas de índices econômicos em cores diferentes

IPCA, INPC, IGP-M, INCC e TR: as diferenças que importam na prática

23/08/2026 · Equipe Corrigir Valor · índices · IPCA · IGP-M

Existem dezenas de índices no Brasil e uma dúvida recorrente: por que dois números que deveriam medir “a inflação” aparecem tão diferentes no mesmo mês? A resposta é simples e quase nunca é dita: eles não medem a mesma coisa. Cada índice tem uma cesta, um público, um período de coleta e um propósito.

Este guia rápido reúne os índices que aparecem em contrato, sentença e planilha, explica o que cada um mede e indica em que situações ele é a escolha certa.

Panorama em uma tabela

ÍndiceQuem calculaO que medeUso típico
IPCAIBGEConsumo de famílias de 1 a 40 salários mínimosInflação oficial, contratos, dívidas civis
INPCIBGEConsumo de famílias de 1 a 5 salários mínimosPensão, benefícios, dissídios
IGP-MFGV60% atacado, 30% varejo, 10% construçãoAluguel, energia, concessões
IGP-DIFGVMesma composição, coleta no mês cheioContratos antigos, administrativos
INCCFGVCusto de construção residencialImóvel na planta, empreitada
TRBanco CentralTaxa derivada de CDBs, com redutorFGTS, poupança, financiamento
SelicBanco CentralJuro básico efetivoTributos, precatórios, judicial
CDIB3Empréstimos de um dia entre bancosRenda fixa privada
Comparação visual das cestas medidas por IPCA, IGP-M, INCC e TR
Cada índice mede uma cesta diferente

Índices de preço x taxas financeiras

A primeira divisão é a mais importante. Índices de preço — IPCA, INPC, IGP-M, IGP-DI, INCC — medem quanto as coisas custam. Taxas financeiras — TR, Selic, CDI, poupança — medem quanto o dinheiro rende.

Usar uma taxa financeira como se fosse índice de inflação leva a resultados absurdos: a TR ficou zerada por quase quatro anos enquanto os preços subiam. Usar um índice de preço como se fosse remuneração ignora o custo de oportunidade do capital. Cada família de indicadores responde a uma pergunta diferente.

IPCA e INPC: irmãos com públicos diferentes

Os dois são calculados pelo IBGE com a mesma metodologia e as mesmas coletas. A diferença está na população de referência e, consequentemente, nos pesos: o IPCA cobre famílias com renda de 1 a 40 salários mínimos; o INPC, de 1 a 5.

Como famílias de renda menor gastam proporcionalmente mais com alimentação, transporte e habitação, o INPC tende a subir mais quando esses itens encarecem — e menos quando o que sobe são serviços de maior renda, como viagens e educação privada. Em anos normais, os dois ficam próximos; em choques de alimentos, divergem.

IGP-M e IGP-DI: o peso do atacado

Os índices gerais da FGV combinam três componentes: 60% de preços no atacado, 30% ao consumidor e 10% de construção. A diferença entre IGP-M e IGP-DI é apenas o período de coleta — do dia 21 ao dia 20, no primeiro; do dia 1 ao dia 30, no segundo.

O peso do atacado explica a volatilidade: o IGP-M fechou 2020 em 23,14% e 2023 em −3,18%. Quando o câmbio se mexe, esses índices se mexem junto, com intensidade que nenhum índice ao consumidor apresenta.

INCC: o custo de construir

O INCC mede materiais, equipamentos, serviços e mão de obra em obras residenciais. Tem duas versões (M e DI), com períodos de coleta diferentes, e comportamento bastante próprio: sobe em degraus quando entram os acordos coletivos da construção e acompanha o preço de material nos demais meses.

É o índice das parcelas de imóvel na planta e dos contratos de empreitada. Fora desse universo, raramente é a escolha adequada.

TR: a taxa que quase ninguém lê

A Taxa Referencial deriva da taxa média de CDBs prefixados dos maiores bancos, com aplicação de um redutor. Por causa desse redutor, ela vai a zero quando os juros caem — foi o que ocorreu entre setembro de 2017 e fevereiro de 2021.

Ela corrige FGTS (mais 3% ao ano), integra o rendimento da poupança e atualiza a maior parte dos financiamentos imobiliários do SFH. O que ela não faz é medir inflação — motivo pelo qual foi afastada da correção dos créditos trabalhistas pelo STF.

Selic e CDI: remuneração, não preço

A Selic é a taxa básica efetiva da economia; o CDI, a taxa dos empréstimos de um dia entre bancos. Andam colados, com o CDI poucos centésimos abaixo.

Na correção de valores, a Selic funciona como fator único: engloba correção monetária e juros. Por isso é obrigatória em matéria tributária e em precatórios, e por isso não deve ser somada a nenhum índice de preço.

Como escolher em três perguntas

  1. O que quero preservar? Poder de compra (IPCA/INPC), custo de construir (INCC), custo industrial (IGP) ou custo de oportunidade do dinheiro (Selic/CDI).
  2. Existe regra obrigatória? Tributos, precatórios, FGTS e crédito trabalhista têm critério imposto por lei ou decisão vinculante.
  3. Que volatilidade eu aguento? Índices gerais oscilam muito mais; índices ao consumidor são mais estáveis.

Depois de escolher, meça o impacto no comparador de índices com o período real do seu contrato.

Como cada índice é construído

Entender a mecânica ajuda a prever o comportamento. O IBGE coleta centenas de milhares de preços por mês em estabelecimentos das regiões pesquisadas, além de tarifas públicas e preços administrados. A cesta e os pesos vêm da Pesquisa de Orçamentos Familiares, atualizada periodicamente — quando muda o padrão de consumo da população, mudam os pesos do índice.

A FGV, nos índices gerais, parte de fontes distintas: levantamentos junto a produtores e distribuidores para o componente de atacado, coleta ao consumidor em algumas capitais e apuração de custos de construção. O componente de atacado é subdividido em agropecuário e industrial, e é ali que estão os saltos que marcam o IGP-M em anos de câmbio volátil.

Já as taxas financeiras não têm coleta de preços: são apuradas a partir de operações efetivamente realizadas — compromissadas com títulos públicos, no caso da Selic; empréstimos interbancários, no caso do CDI; emissões de CDB, no caso da TR. Por isso reagem em dias, e não em meses, a mudanças de política monetária.

Períodos de coleta: por que o mesmo mês tem números diferentes

Duas medições do mesmo fenômeno podem divergir só pela janela. O IGP-M coleta do dia 21 ao dia 20; o IGP-DI, do dia 1 ao dia 30; o IGP-10, do dia 11 ao dia 10. Se um choque de preços ocorre no meio do mês, ele aparece em proporções diferentes em cada um.

O mesmo vale para IPCA e IPCA-15: o segundo encerra a coleta por volta do dia 15 e funciona como prévia. Contratos que citam “IPCA” querem dizer o índice cheio; decisões judiciais que citam “IPCA-E” se referem ao acumulado do IPCA-15. São números distintos, e trocá-los altera o resultado.

O que fazer quando o contrato cita índice extinto

Índices já foram descontinuados no Brasil, e contratos de longo prazo ficaram sem referência. A solução começa pela própria cláusula: contratos bem redigidos indicam o substituto. Na ausência de previsão, aplica-se o índice que melhor reproduza a variação original — na prática, o IPCA —, por acordo entre as partes ou por decisão judicial.

Vale lembrar que índice extinto não invalida a cláusula de reajuste: apenas exige a substituição do parâmetro. Nenhuma das partes pode se aproveitar da extinção para negar o reajuste ou para escolher unilateralmente um índice mais favorável.

Erros de leitura mais comuns

Onde encontrar o número confiável

Toda série publicada aqui vem do SGS — Sistema Gerenciador de Séries Temporais do Banco Central —, que espelha os índices calculados pelo IBGE, pela FGV e pela B3. Cada página de índice informa o número da série usada, o que permite a qualquer pessoa reproduzir a consulta na fonte primária.

Essa rastreabilidade é o que diferencia um dado utilizável de um número solto na internet. Em contrato, cobrança ou processo, sempre cite índice, órgão e período — e, se possível, o número da série. É o padrão que encerra discussões sobre a origem do dado antes que elas comecem.

Os índices em ciclos econômicos distintos

Uma forma prática de fixar as diferenças é observar como cada família reage a três cenários típicos da economia brasileira.

Choque cambial. O dólar sobe rápido, encarecendo insumos importados e commodities cotadas em moeda estrangeira. Os índices gerais reagem primeiro e com força — foi o padrão de 2020, com IGP-M em 23,14% contra IPCA de 4,52%. Índices ao consumidor sentem depois, de forma diluída, conforme o repasse chega ao varejo.

Aperto monetário. O Copom eleva a Selic para conter a inflação. Taxas financeiras sobem imediatamente; índices de preço demoram meses para desacelerar. Nesse cenário, quem tem crédito indexado à Selic ganha muito mais que quem tem crédito indexado a índice de preço — e quem tem dívida sente o contrário.

Deflação de commodities. Safra boa, dólar em queda, minério em baixa. Os índices gerais podem ficar negativos, como em 2023 (−3,18%) e 2025 (−1,04%), enquanto o IPCA segue positivo, puxado por serviços. É quando contratos indexados ao IGP-M ficam mais baratos que os indexados ao IPCA — o inverso do que todo mundo lembra de 2021.

Nenhum desses cenários é previsível com antecedência. O que se pode fazer é escolher o índice cuja lógica econômica corresponda ao custo que se quer preservar — e aceitar a volatilidade que vem junto.

Um vocabulário mínimo para não errar

Variação mensal é a mudança percentual do índice em um mês. Acumulado em 12 meses é a janela móvel dos doze meses fechados mais recentes. Acumulado no ano vai de janeiro até o último mês divulgado. Fator é o multiplicador equivalente ao acumulado: 5% viram 1,05.

Em qualquer conversa profissional sobre correção, esses quatro termos precisam estar claros. A maior parte das divergências entre planilhas não vem de erro de cálculo, mas de duas pessoas usando a mesma palavra para coisas diferentes.

Perguntas frequentes

Qual índice é a “inflação oficial”?

O IPCA. É ele que baliza a meta perseguida pelo Banco Central e o índice legal de correção das dívidas civis desde a Lei 14.905/2024.

Por que o IGP-M sai antes do IPCA?

Porque a coleta termina no dia 20, e a divulgação ocorre ainda dentro do mês de referência. O IPCA tem coleta no mês cheio e sai por volta do dia 10 do mês seguinte.

Existe índice “melhor”?

Não em abstrato. Existe o índice adequado ao que se quer preservar. Ver o guia de escolha.

O que é IPCA-15?

A prévia do IPCA, com coleta encerrada por volta do dia 15. O acumulado trimestral do IPCA-15 forma o IPCA-E, usado em alguns cálculos judiciais.

Onde vejo todos os índices juntos?

Na página de índices, com variação do mês, acumulados de 12 meses, do ano e de cinco anos, atualizados automaticamente.

Posso usar dois índices no mesmo contrato?

Pode, desde que para parcelas ou fases diferentes — INCC durante a obra e IPCA depois, por exemplo. O que não se pode é aplicar dois índices de correção sobre a mesma base no mesmo período.

Índice pode ser revisado depois de publicado?

Revisões são raras e, quando ocorrem, são anunciadas pelo órgão calculador. Séries usadas em contrato costumam adotar o número divulgado na época; alterações posteriores raramente alteram cálculos já consolidados.

Qual índice acompanha melhor o custo de uma empresa?

Depende da estrutura de custos. Empresas intensivas em mão de obra se aproximam de IPCA e INPC; indústrias com insumos importados, do IGP-M; construtoras, do INCC. Em contratos grandes, uma fórmula paramétrica com pesos costuma representar melhor a realidade do que um índice isolado.

Existe índice regional?

O IPCA e o INPC são divulgados também por região metropolitana, e o CUB é estadual. Para contratos com forte componente local, esses recortes podem fazer sentido — desde que a cláusula indique exatamente qual série será usada.

Resumo prático

Veja todos na página de índices, compare no comparador ou leia o guia qual índice usar em cada situação.

Leia também